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Meu filho só presta atenção no que gosta. Isso é TDAH?

  • Dra. Juliana Queiroz
  • May 7
  • 3 min read

Essa é uma das frases que mais escuto no consultório.

"Ele consegue ficar horas jogando, mas não consegue fazer a tarefa.""Quando é algo que gosta, ele presta atenção. Quando não gosta, não faz.""Parece que só se esforça quando quer."

Essa situação gera dúvidas, frustração e, muitas vezes, culpa nos pais. Mas a resposta pode surpreender: Isso pode ser, sim, uma característica típica do TDAH.


O problema não é prestar atenção, é regular a atenção

Crianças com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) não têm falta de atenção o tempo todo.

Elas têm dificuldade em regular a atenção.

Isso significa que conseguem manter foco quando:

  • a atividade é interessante

  • há recompensa imediata

  • existe novidade ou estímulo forte

  • a tarefa é prazerosa

Mas têm muita dificuldade quando a tarefa exige:

  • esforço mental prolongado

  • organização

  • persistência

  • controle da impulsividade

  • tolerância à frustração

Essa diferença não é escolha. É uma característica do funcionamento do cérebro.


Por que a criança consegue focar no videogame, mas não na tarefa?

O cérebro com TDAH responde de forma mais intensa aos estímulos que geram recompensa imediata.

Atividades como: videogame, desenhos, brincadeiras, vídeos e jogos ativam mais rapidamente os sistemas de motivação e recompensa. Já tarefas como: lição de casa, estudo, leitura, organização e atividades repetitivas exigem esforço mental contínuo, planejamento e autorregulação, áreas que costumam estar mais vulneráveis no TDAH.

Isso não é preguiça. Não é falta de vontade. Não é falta de inteligência.

É uma dificuldade nas chamadas funções executivas.


O que são funções executivas?

Funções executivas são habilidades do cérebro que permitem:

  • manter o foco

  • iniciar tarefas

  • organizar atividades

  • controlar impulsos

  • planejar

  • persistir diante de dificuldades

  • regular emoções

Essas habilidades dependem principalmente do funcionamento do córtex pré-frontal, que ainda está em desenvolvimento na infância, e pode funcionar de forma diferente em crianças com TDAH.


O hiperfoco também pode acontecer no TDAH

Um ponto importante, e pouco conhecido, é o hiperfoco. Hiperfoco é quando a criança fica extremamente concentrada em uma atividade que considera interessante.

Por exemplo:

  • ficar muito tempo jogando

  • se envolver intensamente em um tema específico

  • esquecer do tempo

  • ignorar o ambiente ao redor

Isso não significa ausência de TDAH.

Na verdade, pode ser uma manifestação típica do transtorno.


Quando isso deixa de ser normal e passa a ser um sinal de alerta?

Toda criança prefere atividades prazerosas. Isso é esperado. O sinal de alerta aparece quando essa dificuldade gera prejuízo funcional.

Por exemplo:

  • dificuldade persistente na escola

  • tarefas que demoram muito para começar ou terminar

  • esquecimentos frequentes

  • desorganização constante

  • frustração intensa diante de tarefas

  • impacto no desempenho acadêmico

  • conflitos familiares frequentes

  • baixa autoestima

  • sensação de incapacidade

O diagnóstico não depende apenas do comportamento. Depende do impacto no funcionamento da criança.


Não é falta de limite, mas limite continua sendo importante

Esse é um ponto essencial. TDAH não significa ausência de regras. Nem significa que a criança não precisa de limites.

Na verdade, crianças com TDAH se beneficiam muito de:

  • rotinas previsíveis

  • regras claras

  • tarefas estruturadas

  • orientações objetivas

  • supervisão consistente

  • reforço positivo

Estrutura ajuda o cérebro a funcionar melhor.


O que ajuda no dia a dia?

Algumas estratégias simples fazem grande diferença:

  • dividir tarefas longas em etapas curtas

  • usar timer ou cronômetro

  • reduzir distrações no ambiente

  • oferecer pausas programadas

  • usar reforço positivo

  • manter rotina previsível

  • dar instruções curtas e claras

  • supervisionar o início das tarefas

Essas medidas não substituem o tratamento, mas ajudam muito.


Quando procurar avaliação?

Vale investigar quando:

  • a atenção depende sempre do interesse

  • a criança tem dificuldade persistente em tarefas obrigatórias

  • há prejuízo escolar

  • há impacto no comportamento ou na organização

  • o problema está presente em mais de um ambiente

  • os sintomas persistem ao longo do tempo

Diagnóstico precoce não rotula. Direciona cuidado.


Se seu filho presta atenção apenas no que gosta, isso não significa falta de esforço.

Pode ser uma dificuldade real de funcionamento do cérebro. Estratégias adequadas mudam o desenvolvimento.


Crianças com TDAH tem dificuldade em regular a atenção.
No TDAH, o desafio não é prestar atenção. É sustentar atenção quando a tarefa não é interessante.


 
 
 

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