Ácido folínico no autismo: o que dizem os estudos e a SBNI
- Dra. Juliana Queiroz
- Nov 6, 2025
- 3 min read
Nos últimos anos, o ácido folínico, também conhecido como leucovorina ou folinato de cálcio, vem sendo estudado como uma possível terapia complementar para o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mas afinal, o que a ciência mostra até agora? E qual é a posição da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) sobre o assunto?
O que é o ácido folínico?
O ácido folínico é uma forma ativa do folato (vitamina B9). Diferente do ácido fólico comum, ele não precisa ser convertido por enzimas como a diidrofolato redutase, o que permite que chegue mais facilmente ao sistema nervoso central. Ele é usado há décadas na medicina, por exemplo, para reduzir os efeitos tóxicos do metotrexato (em tratamentos de câncer ou doenças autoimunes). No contexto do TEA, o interesse surgiu após descobertas de que algumas crianças apresentam alterações no metabolismo do folato, especialmente devido a anticorpos contra o receptor de folato (FRAA) ou variantes genéticas que reduzem a eficiência dessa via.
Por que estudar o folato no TEA?
O folato é essencial para diversas funções cerebrais, incluindo:
A síntese de neurotransmissores (como dopamina e serotonina);
A metilação do DNA, importante para a regulação genética;
O desenvolvimento neuronal e mielinização.
Quando há disfunção no transporte de folato para o cérebro, a criança pode desenvolver irritabilidade, atraso ou regressão do desenvolvimento, distúrbios de movimento, perda visual, perda auditiva e epilepsia.
O que mostram os estudos científicos
Diversos ensaios clínicos avaliaram o uso do ácido folínico em crianças com TEA, com resultados promissores, mas ainda não conclusivos.
Frye et al., 2018
Um estudo duplo-cego, randomizado e controlado com 48 crianças com TEA e prejuízo de linguagem. O grupo que recebeu ácido folínico por 12 semanas teve melhora significativa na comunicação verbal em comparação ao placebo, especialmente entre as crianças com anticorpos FRAA positivos.
Panda et al., 2024
Ensaio de 24 semanas, também com ácido folínico em dose alta. Os resultados mostraram redução dos sintomas de autismo (avaliados pela CARS e CBCL) e melhora na interação social.
Zhang et al., 2025 (China)
Estudo com foco em polimorfismos genéticos do metabolismo do folato (como MTHFR e MTRR). Crianças que receberam ácido folínico apresentaram melhora em habilidades sociais e comunicação, com boa tolerabilidade.
Apesar desses achados positivos, os estudos ainda são pequenos e heterogêneos, o que limita a generalização dos resultados.
E o que diz a SBNI?
A Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) publicou em 2025 o documento “Recomendações e Orientações para o Diagnóstico, Investigação e Abordagem Terapêutica do TEA”. No capítulo sobre “suplementações e terapias sem evidência consolidada”, a SBNI inclui o ácido folínico como uma intervenção experimental.
Principais pontos do documento:
O ácido folínico ainda não possui evidência científica suficiente para uso rotineiro no TEA.
Pode ser considerado caso a caso, especialmente quando há suspeita de alteração no metabolismo do folato ou presença de FRAA positivos.
O uso deve ser feito com acompanhamento médico e monitorização clínica.
Não deve substituir terapias com eficácia comprovada, como fonoaudiologia, terapia ocupacional, integração sensorial e ABA.
Possíveis efeitos adversos
O ácido folínico é geralmente bem tolerado, mas podem ocorrer:
Irritabilidade ou agitação leve
Distúrbios do sono
Sintomas gastrointestinais (náusea, dor abdominal leve)
Os efeitos costumam ser leves e transitórios. Mesmo assim, é fundamental que o uso seja acompanhado por um médico.
Conclusão
O ácido folínico representa uma linha promissora de pesquisa no autismo, especialmente em subgrupos de crianças com alterações do metabolismo do folato. Porém, as evidências ainda são limitadas e não justificam o uso rotineiro.
O mais importante é que as famílias recebam informação clara e equilibrada, entendendo que:
Trata-se de um uso experimental;
Nem todas as crianças se beneficiam;
O acompanhamento multiprofissional continua sendo a base do cuidado.
O futuro deve trazer novos estudos que nos ajudem a definir melhor quem pode se beneficiar dessa intervenção.
Referências principais
Frye RE, et al. Folinic acid improves verbal communication in children with autism and language impairment: a randomized double-blind placebo-controlled trial. Mol Psychiatry. 2018.
Panda AK, et al. High-dose folinic acid improves core symptoms of autism: a 24-week randomized controlled trial. Frontiers in Psychiatry. 2024.
Zhang Y, et al. High-dose folinic acid supplementation improves symptoms in children with autism spectrum disorder and folate pathway gene polymorphisms. Nutrients. 2025;17(9):1602.
Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI). Recomendações e Orientações para o Diagnóstico, Investigação e Abordagem Terapêutica do TEA. 2025.





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